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Leões, Vodka e Um Sapato 23 é um espetáculo que tem como ponto de partida para sua dramaturgia a tragédia do Circo Vostok, que ocorreu em 9 de abril de

2000. Este cenário se tornou a premissa de base que moveu estes quatro artistas a revisitar o fato, ampliando-o e refletindo-o para nossa própria miserabilidade humana.

Revisitar nos dias de hoje este fato que envolve o Circo Vostok por meio da óptica improvável de quatro leões mortos é romper as jaulas dos nossos próprios  não- ditos e fracassos enquanto uma sociedade sufocada por suas contradições e atrocidades.

À partir da orientação e aprofundamento do estudo da bufonaria amplia-se o repertório de gestos e possibilidades físicas das cenas  e narrativas  dos atuadores. A comédia física dos bufos quando tratados como não-humanos, fantásticos, grotescos e até míticos  nos abre para diferenciadas  formas estéticas, musicais e de lógica de jogo. A linguagem  dos bufos,  satíricos, perversos

por vezes, proféticos por outras, bobos, acrobáticos e

mimodinâmicos proporciona à obra uma tessitura

dramatúrgica tragicômica e uma narrativa

nada linear. É como se estas criaturas não- humanas

descessem ao picadeirono dia seguinte de 09 de abril e

nos provocassem a compreender cada tiro dado e como suas memórias esfaceladas desde

suas rotinas no picadeiro ainda nos fornecem certa coerência.

Aqui não somente refletimos os atos ilícitos, controversos e excusos do fato do dia 09 de abril, mas nos

provocamos a uma jaula de verdades pelo ponto de vista dos que tem fome, ainda que leões mortos.

Assuntos como a exploração do trabalho, a fome e a liberdade, são temas pertinentes àsociedade atual por seus destratos e descompassos

na sua relação com o mundo.

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